Como implementar a Auditoria Interna em um “ambiente hostil”
- Brain at Work

- 26 de set. de 2019
- 3 min de leitura

“Lá vem aquele ‘cara chato’!”
“Por que você me odeia tanto?”
“Se você não começar a ‘jogar o nosso jogo’, as coisas ficarão bem difíceis pra você aqui dentro!”
As pessoas que escolheram a auditoria (tanto interna quanto externa) como carreira, certamente, em algum momento de sua trajetória, ouviram (ou poderão ouvir) frases como as expostas acima.
É possível apontar algumas razões pelas quais as pessoas “auditadas” reagem de maneira negativa à presença de um auditor, como:
Alguns colegas podem ser arrogantes (infelizmente estas figuras estão presentes em todas as profissões);
Os auditados têm algo a esconder;
Ninguém gosta de se sentir “monitorado”.
A minha proposta é eliminarmos as duas primeiras opções e considerarmos a terceira como sendo a mais representativa (pelo menos foi a mais observada em minha experiência profissional até o momento).
De que forma os auditores podem diminuir o “nível de hostilidade” em pessoas que mudam seu comportamento ao se sentirem “monitoradas”? Como transmitir a “mensagem” de maneira mais leve e adicionar valor à empresa, ao processo auditado?
Apoio
Assim como a implementação de um Programa de Compliance, estabelecer a função de Auditoria Interna dentro de qualquer organização depende, essencialmente, do apoio da alta administração e a possibilidade de um reporte independente.
É verdade que algumas empresas (as de capital aberto, por exemplo) são “obrigadas” pelos órgãos reguladores a implementar este departamento no intuito de assegurar aos investidores minoritários e demais interessados de que os números apresentados nas demonstrações financeiras, utilizados para a tomada de decisão, são adequados e refletem uma boa gestão com base em uma estrutura sólida de controles internos.
Se a função de auditora interna for estabelecida apenas para cumprir um requerimento e não for suportada pela alta administração, a hostilidade dos demais níveis organizacionais tende a crescer, pois estes não a veem como necessária, sendo apenas mais um “centro de custo”.
Alinhamento
A comunicação entre auditores e áreas auditadas é crucial para que o projeto seja conduzido de maneira eficaz. Alinhar as expectativas de cada um e resultados esperados é uma das maneiras para conter possíveis momentos de hostilidade.
Algumas responsabilidades de cada parte podem ser adotadas para adicionar clareza à comunicação:
Áreas de negócios:
Agir com transparência – dizer ao auditor quais as oportunidades de melhoria que já identificou em seu processo (nenhum processo é tão bom que não possa ser melhorado);
Ter conhecimento das atividades que desempenha;
Ser crítico, interagir mais e procurar entender o que o auditor espera;
Zelar pelos controles de sua área (isso não é responsabilidade da área de Controles Internos!);
Providenciar documentos nos prazos acordados;
Implementar melhorias recomendadas e acordadas.
Auditores devem:
Entender o melhor momento para abordar a área auditada (avaliar os controles da Contabilidade no final ou início de cada mês não te trará amigos!);
Construir e compartilhar conhecimento – aprender com cada trabalho para que possa aplicar o aprendizado em outros projetos e disseminar o conhecimento na companhia como um todo (forme “audit champions”!);
Manter sigilo sobre as informações recebidas;
Manter a ética, o ceticismo profissional, avaliar de forma independente, ser cordial – auditores também possuem amizades dentro da companhia e manter a independência pode ser um desafio;
Agir em parceria com as áreas – demonstrar que não é inimigo, que veio para ajudar na melhoria contínua dos processos, que as recomendações de melhorias em processos não devem ser levadas para o lado pessoal;
Seguir o cronograma – pessoas contam com os resultados dos seus trabalhos para tomar decisões;
Comunicar-se de forma clara e objetiva – nem todos possuem seu “linguajar técnico”;
Recomendar melhorias que agreguem valor aos processos – trocar a cor da planilha do cliente não levará a nada!
Atitudes esperadas das áreas de negócio (ou não)
O auditor chegou: o que fazer?
Manter a calma
Entender o que o auditor espera de você
Explicar seu processo de forma detalhada
Ser crítico e apresentar alternativas ao que está sendo solicitado
Entregar a documentação na data acordada (evite cobranças desnecessárias!)
O auditor chegou: o que NÃO fazer?
Mentir!
Tentar esconder evidências
Produzir evidências durante a auditoria – lembre-se: o auditor sabe que aquela aprovação acabou de ser impressa e assinada!
Postergar constantemente a entrega de documentos
Fazer algo apenas para “fins de auditoria” – Tudo o que você faz deveria ter um propósito e não ser feito “porque a auditoria recomendou”.
Aprimoramento contínuo
Por fim, os auditores devem se comprometer com seu aprimoramento contínuo e refletir isso em seu trabalho. Saber demonstrar que os processos evoluem em todas as empresas de acordo com as melhores práticas de mercado e deixar claro que não estão “perseguindo” ninguém pode ser desafiador, mas trará um sentimento de “missão cumprida” se as pessoas conseguirem ver o valor daquele trabalho, daquela recomendação.
Dar o exemplo através do comportamento ético é uma de suas maiores responsabilidades, principalmente em ambientes hostis. “Revidar com classe” através de bons argumentos contribuirá para a construção de uma cultura diferente, leve e ética!

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